ABA ainda é a melhor linha de terapia para autistas?
Quando atendo uma família depois do diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma das perguntas que mais escuto é:
“Doutora, a terapia ABA ainda é a melhor linha terapêutica para meu filho?”
Essa dúvida é natural. São muitas informações na internet, profissionais diferentes dando opiniões distintas, e cada família deseja apenas o melhor caminho para a criança. Hoje quero explicar, de forma clara e baseada em evidências, como enxergo o papel da Terapia ABA dentro das necessidades reais das crianças autistas.
O que é ABA ?
ABA significa Análise do Comportamento Aplicada. É uma abordagem estruturada que utiliza princípios da aprendizagem para:
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Estimular novas habilidades
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Reduzir comportamentos que causam sofrimento ou dificuldade
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Aumentar autonomia
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Melhorar comunicação e interação
Ela se tornou popular porque foi uma das primeiras terapias a ter estudos científicos robustos mostrando efeitos positivos no desenvolvimento infantil.
Mas ABA ainda é considerada a melhor terapia?
Aqui está a resposta mais honesta e atualizada:
ABA pode ser muito útil — mas não é a única e nem sempre é a melhor para TODAS as crianças.
Hoje entendemos que:
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O autismo é extremamente diverso.
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Crianças têm necessidades, ritmos e perfis sensoriais diferentes.
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Intervenções que funcionam bem para uma, podem não funcionar para outra.
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Existe espaço para outras abordagens, como:
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Denver (ESDM)
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DIR/Floortime
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Denver adaptado
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Modelo responsivo parental
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Terapias de integração sensorial
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Comunicação alternativa (CAA)
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A ciência mais recente mostra que o que funciona melhor é a combinação personalizada, não um “rótulo terapêutico”.
Evidências mais modernas sobre intervenções no TEA
Estudos recentes destacam três pontos importantes que sempre explico aos pais:
1. Terapias precisam respeitar o perfil sensorial e emocional da criança.
Crianças autistas não aprendem bem quando estão sobrecarregadas ou obrigadas a manter comportamentos padronizados.
2. O vínculo é tão importante quanto a técnica.
Quando a criança sente segurança, acolhimento e previsibilidade, o aprendizado acontece muito mais rápido — independentemente do método.
3. Envolver a família melhora TODOS os resultados.
Hoje sabemos que quando os cuidadores aprendem estratégias simples e diárias, o impacto no desenvolvimento é maior do que sessões intensivas isoladas.
Quando ABA costuma ser indicada por mim?
Eu costumo considerar ABA especialmente útil quando a criança:
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Possui comportamentos que colocam em risco (autoagressão, fugas);
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Tem grandes desafios de comunicação funcional;
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Precisa de rotinas estruturadas para diminuir ansiedade;
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Necessita modelagem de habilidades específicas, como higiene, alimentação ou linguagem.
Nesses cenários, ABA pode ser extremamente eficaz — desde que aplicada de forma ética, respeitosa e centrada na criança.
Quando ABA pode não ser a primeira escolha?
Quando observo a criança:
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Muito sensível a estímulos
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Ter maior benefício com abordagens mais lúdicas
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Reagir melhor a terapias baseadas em vínculo emocional
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Precisar de uma intervenção menos diretiva
Nestes casos, outros modelos podem se adaptar melhor.
A pergunta mais importante não é “qual é a melhor terapia?”
A pergunta certa é:
“Qual é a melhor terapia PARA O MEU FILHO?”
E essa resposta só aparece quando avaliamos:
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Idade
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Nível de suporte
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Perfil sensorial
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Comunicação
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Dificuldades funcionais
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Contexto familiar
Nenhuma terapia é “universal”. O melhor plano terapêutico é sempre individualizado, humanizado e adaptado à realidade da criança.
“Dra., e a ansiedade da criança? ABA trata?”
Aqui faço um esclarecimento importante:
As abordagens terapêuticas para ansiedade que vemos para adultos NÃO se aplicam diretamente às crianças.
Crianças precisam de intervenções lúdicas, baseadas em regulação emocional, rotina, acolhimento e estratégias de apoio.
A terapia do comportamento pode ajudar em alguns aspectos, mas ansiedade em crianças — especialmente autistas — deve ser avaliada e acompanhada com muito cuidado.
Minha visão:
Como médica, meu papel é ajudar você a enxergar o quadro completo.
Na minha prática clínica, percebo que melhores resultados acontecem quando:
* Terapias se adaptam à criança, e não o contrário.
* Família participa ativamente.
* Trabalhamos além do comportamento: sono, alimentação, sensorial, social, emocional.
* Criamos um plano integrado e longe de extremismos.
ABA pode ser uma peça importante. Mas nunca deve ser a única peça.
Quando devo procurar orientação profissional?
Sempre que você perceber:
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Regressões
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Dificuldade de comunicação
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Comportamentos desafiadores
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Desafios sensoriais importantes
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Dúvidas sobre qual terapia iniciar
Estou aqui para ajudar sua família com acolhimento, ciência e um olhar integral para o desenvolvimento da criança.
Se você está passando por esse momento de dúvidas, será um prazer orientar com calma, analisar o perfil do seu filho e montar um plano terapêutico individualizado.