Cannabis medicinal reduz crises de agressividade no autismo?
Essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório — geralmente vinda de pais exaustos, preocupados e, muitas vezes, angustiados ao ver seus filhos passando por crises intensas de agressividade, autoagressão ou explosões emocionais difíceis de controlar.
Como pediatra, atuo com desenvolvimento infantil e transtornos do neurodesenvolvimento e por isso quero responder essa pergunta com clareza e responsabilidade.
O que são as crises de agressividade no autismo?
As crises de agressividade no Transtorno do Espectro Autista (TEA) não são birra, malcriação ou falta de limites. Na maioria das vezes, elas são uma forma de comunicação.
Essas crises podem estar relacionadas a:
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Sobrecarga sensorial
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Dificuldade de comunicação
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Ansiedade intensa
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Dor ou desconforto físico
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Frustração por não conseguir se expressar
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Alterações no sono ou na rotina
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Desequilíbrios neurológicos e inflamatórios
Quando a criança perde a capacidade de autorregulação, o comportamento agressivo pode surgir como um pedido de ajuda.
Onde entra a cannabis medicinal?
A cannabis medicinal, especialmente formulações à base de canabidiol (CBD), tem sido estudada como terapia adjuvante para ajudar na regulação do sistema nervoso.
Sabemos que o sistema endocanabinoide — responsável por equilibrar emoções, resposta ao estresse, sono e comportamento — no TEA pode funcionar de forma desregulada.
O CBD atua justamente como um modulador desse sistema.
Na prática clínica, quando bem indicado e monitorado, ele pode ajudar a:
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Reduzir a intensidade e a frequência das crises de agressividade
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Diminuir comportamentos de autoagressão
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Melhorar a regulação emocional
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Reduzir irritabilidade persistente
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Melhorar qualidade do sono
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Aumentar a tolerância a estímulos sensoriais
E o THC? Ele é usado em crianças?
Essa é uma dúvida muito comum.
Em pediatria, o foco principal é o CBD, porém o THC pode ajudar em microdoses, cuidadosamente calculadas, em situações muito específicas, sempre com acompanhamento médico rigoroso.
O foco é buscar equilíbrio neurológico.
A cannabis substitui outras terapias?
Não. E isso é muito importante deixar claro.
A cannabis medicinal não substitui terapias essenciais, como:
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Terapia ocupacional
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Fonoaudiologia
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Psicoterapia
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Intervenções comportamentais
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Ajustes sensoriais e ambientais
Ela pode ser uma ferramenta complementar, especialmente quando:
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As crises são frequentes e intensas
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Outras abordagens isoladas não estão sendo suficientes
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O sofrimento da criança e da família é significativo
Existe comprovação científica?
Ainda estamos avançando nos estudos, mas os dados atuais são promissores.
Estudos observacionais e revisões científicas mostram melhora em:
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Irritabilidade
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Agressividade
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Distúrbios do sono
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Ansiedade associada ao TEA
É seguro?
Quando prescrito por um médico capacitado, com:
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Produto regularizado
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Dose individualizada
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Acompanhamento contínuo
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Avaliação de efeitos colaterais
Sim, é seguro.
Os efeitos adversos mais comuns, quando ocorrem, costumam ser leves e transitórios, como sonolência ou alterações gastrointestinais.
Quando considerar essa abordagem?
Costumo considerar a cannabis medicinal quando:
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As crises de agressividade comprometem a qualidade de vida
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Há sofrimento significativo da criança ou da família
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Outras estratégias já foram tentadas, sem sucesso, levando ao contexto de uso compassivo.
Minha mensagem final para os pais
Se você chegou até aqui, provavelmente está buscando ajuda, acolhimento e respostas.
Meu papel como médica não é prometer milagres, mas avaliar com responsabilidade todas as ferramentas possíveis para reduzir o sofrimento da criança e da família.
A cannabis medicinal não é para todos, mas pode ser uma aliada valiosa quando bem indicada, dentro de um plano terapêutico individualizado e humano.
Se você tem dúvidas, inseguranças ou quer entender se essa abordagem faz sentido para o seu filho, agende uma consulta! Estou aqui e posso te ajudar.