História da Cannabis Medicinal: da tradição ancestral à medicina baseada em evidências
Olá, eu sou a Dra. Isabelle Faria, pediatra, e neste post quero te guiar pela história da cannabis medicinal – desde os registros mais antigos até o que a ciência moderna tem mostrado, especialmente em áreas como epilepsia, neurodesenvolvimento, comportamentos e qualidade de vida.
Muitos pais chegam ao consultório com dúvidas:
“Doutora, isso é novidade?”
“É seguro?”
“Existe ciência por trás ou é ‘moda’?”
A resposta é: não é novidade, mas a forma como estudamos e utilizamos a cannabis mudou muito ao longo do tempo. Hoje temos evidências científicas, regulamentação e critérios claros de indicação.
No contexto pediátrico, falamos de uso de cannabis com finalidades medicinais e terapêuticas em situações muito específicas, como epilepsias refratárias e, em alguns casos, sintomas associados ao transtorno do espectro autista – sempre com muita cautela e acompanhamento.
Linha do tempo: principais marcos da cannabis na medicina
Registros históricos mostram o uso medicinal da cannabis há milhares de anos, principalmente na Ásia (especialmente Índia e China), para dor, distúrbios gastrointestinais, convulsões e outras queixas.
Uma revisão clássica publicada em 2006 por Zuardi resume bem esse percurso histórico, mostrando que o uso medicinal da cannabis começou muito antes da medicina moderna como conhecemos hoje:
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Século XIX (cerca de 1830–1890): a cannabis passa a ser usada na medicina ocidental, principalmente na Europa, em forma de tinturas e extratos, para dor, espasmos e insônia.
- Final do século XIX: uso atinge um “pico”, com diversos produtos à base de cannabis em farmácias.
- Um artigo de revisão de 2017 resume a importância histórica da cannabis medicinal e discute farmacologia e implicações clínicas: Bridgeman MB, Abazia DT. Medicinal Cannabis: History, Pharmacology, and Implications for the Acute Care Setting. P T. 2017. Link (PMC)
- Século XX: proibição e estigma: No século XX, por razões muito mais políticas, sociais e econômicas do que científicas, a cannabis passou a ser proibida em muitos países, o que atrasou bastante as pesquisas
- Século XX: proibição e estigma, no século XX, por razões muito mais políticas, sociais e econômicas do que científicas, a cannabis passou a ser proibida em muitos países, o que atrasou bastante as pesquisas.
Apesar disso, o interesse médico nunca desapareceu completamente – especialmente em áreas como dor crônica e epilepsia.
Anos 1990: a descoberta do sistema endocanabinoide
O grande “divisor de águas” científico veio a partir da década de 1990, quando pesquisadores descobriram:
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Receptores específicos para os canabinoides (CB1 e CB2) no organismo.
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O primeiro endocanabinoide, a anandamida, isolada em 1992 pelo grupo de Raphael Mechoulam.
Desde então, falamos em sistema endocanabinoide, um sistema regulador presente em todo o corpo, envolvido em:
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Regulação do humor
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Resposta inflamatória
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Dor
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Sono
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Memória
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Apetite
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Modulação de circuitos neurológicos
Um artigo de revisão acessível para profissionais resume bem esse sistema:
Em 2023, um artigo em português revisou os mecanismos de ação dos canabinoides, descrevendo os receptores CB1 e CB2 e sua distribuição no sistema nervoso:
A virada da evidência: cannabis medicinal em epilepsia
A partir dos anos 2000, e especialmente na década de 2010, surgiram ensaios clínicos randomizados avaliando canabidiol (CBD) em epilepsias graves da infância, como síndrome de Dravet e síndrome de Lennox-Gastaut.
2017 – Dravet syndrome
Em 2017, um estudo publicado no New England Journal of Medicine demonstrou que o CBD reduziu significativamente as convulsões em crianças e jovens com síndrome de Dravet, uma forma grave e resistente de epilepsia:nejm.org+1
2018 – Lennox-Gastaut
Em 2018, ensaio clínico de fase 3 publicado na The Lancet avaliou o CBD em pacientes com Lennox-Gastaut, outra forma grave de epilepsia, mostrando redução importante nas crises de queda:
Síntese das evidências em epilepsia
Uma revisão brasileira publicada em 2022 resumiu dados de diversos ensaios clínicos com CBD em Dravet, Lennox-Gastaut e esclerose tuberosa, mostrando redução de crises e segurança aceitável em uso adjuvante:scielo.br
Esses estudos foram fundamentais para que diversos países regulamentassem o uso de produtos à base de cannabis para epilepsias refratárias.
Regulamentação no Brasil: RDC 327/2019 e atualização
No Brasil, um marco importante foi a publicação da RDC nº 327/2019 da Anvisa, em 9 de dezembro de 2019, que criou a categoria de “produtos de cannabis para fins medicinais”, estabelecendo critérios de fabricação, importação, prescrição e dispensação.Serviços e Informações do Brasil+3bvsms.saude.gov.br+3Imprensa Nacional+3
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RDC 327/2019 – Anvisa
Texto oficial (Imprensa Nacional):
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-da-diretoria-colegiada-rdc-n-327-de-9-de-dezembro-de-2019-232669072 -
Perguntas e respostas da Anvisa sobre produtos de cannabis (PDF):
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/educacaoepesquisa/webinar/medicamentos/arquivos/perguntas-e-respostas-autorizacao-sanitaria-de-produtos-de-cannabis.pdf
Uma nota técnica de 2021, por exemplo, também resume essa regulamentação e destaca que os produtos de cannabis devem seguir requisitos de qualidade farmacêutica:saude.pr.gov.br
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Nota Técnica nº 04/2021 – Importação de produtos de cannabis:
https://www.saude.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2022-03/nt042021importacaoprodutosdecannabis.pdf
Atualmente, há diversos produtos autorizados pela Anvisa para uso medicinal, e a própria regulamentação vem sendo discutida e aprimorada ao longo do tempo
E no cuidado infantil? Onde a cannabis entra
Como pediatra, minha responsabilidade é proteger a criança, equilibrando possíveis benefícios com segurança a longo prazo.
Hoje, o uso de cannabis medicinal em pediatria é avaliado especialmente em casos como:
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epilepsias graves e refratárias
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algumas situações específicas de dor crônica ou sintomas associados a quadros neurológicos complexos
Já em relação a autismo (TEA), TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento, as pesquisas ainda estão em evolução. Há estudos observacionais e séries de casos sugerindo benefícios em sintomas como irritabilidade, sono e comportamentos repetitivos, mas ainda não temos o mesmo nível de evidência que existe para epilepsia refratária.
Por isso, quando discuto cannabis medicinal com famílias, sempre explico:
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não é “cura”
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não substitui terapias comportamentais, fonoaudiologia, terapias ocupacionais, psicopedagogia
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precisa de acompanhamento de perto, com reavaliação constante
⚠️ Um ponto crucial: ansiedade e uso em adultos
A ansiedade é frequentemente citada como indicação em adultos, mas esse uso exige muito cuidado, especialmente quando envolve produtos ricos em THC. Estudos e relatórios apontam que prescrições de cannabis com altos teores de THC, usadas de forma inadequada, podem aumentar o risco de efeitos adversos, incluindo sintomas psicóticos, principalmente em populações vulneráveis.couriermail.com.au+1
Por isso, reforço:
Uso de cannabis medicinal para ansiedade é indicação voltada exclusivamente a adultos, nunca para crianças.
O que os pais costumam perguntar no consultório
Muitos pais que lidam com TEA, TDAH, atrasos de fala, dificuldades de sono, regressões, crises de comportamento e desafios sensoriais chegam ao consultório exaustos de pesquisar na internet.
Algumas perguntas que ouço com frequência:
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“Doutora, cannabis pode ajudar meu filho a dormir melhor?”
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“Pode melhorar crises de irritação?”
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“Tem risco de deixar meu filho ‘dopado’?”
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“Vai prejudicar o desenvolvimento neurológico?”
O que faço nesses casos?
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Escuto a história completa da criança, desde gestação, desenvolvimento motor, fala, sono, alimentação, socialização e escolarização.
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Avalio todo o contexto clínico, terapias já em andamento, medicações em uso, histórico familiar.
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Explico exatamente o que a literatura já mostrou (como nos casos de epilepsia) e o que ainda está em fase de estudo.
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Apresento opções terapêuticas – convencionais e, quando realmente indicado, discuto a possibilidade da cannabis medicinal.
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Refaço sempre o reforço:
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Não é milagre
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Não substitui terapias estruturadas
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Exige acompanhamento contínuo
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Como a história da cannabis impacta as decisões que tomo hoje
Toda essa trajetória – desde os usos antigos, passando pela proibição, até a ciência moderna – impacta diretamente as decisões que tomo como pediatra:
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Não posso ignorar evidências robustas, como nos ensaios de epilepsia refratária.
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Não posso banalizar o uso, especialmente em crianças, onde o cérebro ainda está em intenso desenvolvimento.
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Preciso separar informação séria de promessas milagrosas que circulam em redes sociais.
Conhecer a história da cannabis medicinal me ajuda a:
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Entender que ela não é “vilã” nem “salvadora”
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Colocá-la no lugar correto: uma ferramenta terapêutica possível, em contextos específicos, baseada em evidência e ética
Quando faz sentido marcar uma consulta para falar sobre isso?
Procure avaliação especializada se você:
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É mãe ou pai de uma criança com epilepsia de difícil controle
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Percebeu regressões no desenvolvimento
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Observa crises de irritabilidade intensa, autolesão ou comportamentos muito desorganizadores
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Sente que já tentou diversos caminhos, mas ainda tem dúvidas sobre novas possibilidades terapêuticas
Na consulta, meu objetivo é:
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Compreender profundamente a história do seu filho
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Revisar exames, laudos e terapias em andamento
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Discutir, com transparência, o que a ciência já sabe e o que ainda está em estudo
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Avaliar se há ou não indicação de cannabis medicinal no caso específico da sua criança
Acima de tudo, quero que você se sinta acolhido, informado e seguro para tomar decisões em conjunto comigo.
Referências
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Zuardi AW. History of cannabis as a medicine: a review. Rev Bras Psiquiatr. 2006.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16810401/ PubMed -
Bridgeman MB, Abazia DT. Medicinal Cannabis: History, Pharmacology, and Implications for the Acute Care Setting. P T. 2017.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5312634/ pmc.ncbi.nlm.nih.gov -
De Petrocellis L, Di Marzo V. An introduction to the endocannabinoid system. 2009.
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1521690X08001437 ScienceDirect+1 -
Devinsky O et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28538134/ PubMed+1 -
Thiele EA et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox–Gastaut syndrome (GWPCARE4): a randomised, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial. Lancet. 2018.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29395273/ PubMed+1 -
Silvinato A et al. Use of cannabidiol in the treatment of epilepsy: Lennox-Gastaut syndrome, Dravet syndrome, and tuberous sclerosis complex. Rev Assoc Med Bras. 2022.
https://www.scielo.br/j/ramb/a/vh3QpdBkQfXVrdw7nT63bdd/ scielo.br -
Anvisa – RDC nº 327, de 9 de dezembro de 2019.
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-da-diretoria-colegiada-rdc-n-327-de-9-de-dezembro-de-2019-232669072 Imprensa Nacional+1 -
Anvisa – Perguntas e respostas sobre produtos de cannabis (PDF).
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/educacaoepesquisa/webinar/medicamentos/arquivos/perguntas-e-respostas-autorizacao-sanitaria-de-produtos-de-cannabis.pdf Serviços e Informações do Brasil -
Araújo MGLC et al. The cannabinoids mechanism of action: an overview. Br J Pain. 2023.
https://brjp.org.br/journal/brjp/article/doi/10.5935/2595-0118.20230028-en Periodikos+1 -
Nota Técnica nº 04/2021 – Importação de produtos de cannabis.
https://www.saude.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2022-03/nt042021importacaoprodutosdecannabis.pdf