Criança pequena brincando silenciosamente em um tapete, observando atentamente um brinquedo em um ambiente acolhedor.

Autismo: primeiros sinais que os pais podem reconhecer cedo

Como pediatra, uma das perguntas que mais recebo no consultório é:
“Doutora, será que isso que meu filho faz é normal ou pode ser sinal de autismo?”

Quero começar te dizendo algo muito importante:
observar os sinais precoces não significa colocar um rótulo na criança.
Significa garantir que ela receba o acompanhamento adequado na hora certa — e isso muda completamente o desenvolvimento.

Neste post, vou explicar, de forma acolhedora e clara, quais sinais podem surgir ainda nos primeiros meses e anos de vida, quando vale investigar e por que o diagnóstico precoce faz tanta diferença.

Por que é tão importante reconhecer sinais cedo?

Quanto mais cedo identificamos características do Transtorno do Espectro Autista (TEA), mais rapidamente conseguimos iniciar intervenções que fortalecem:

  • Comunicação

  • Interação social

  • Comportamento

  • Habilidades motoras

  • Aprendizagem

  • Autonomia

Não é sobre “curar” autismo — e sim sobre promover qualidade de vida, reduzir frustrações e ajudar a criança a se desenvolver com seus potenciais.

Sinais precoces de autismo entre 0 e 24 meses

Nem toda criança apresentará todos os sinais. Alguns aparecem muito cedo, outros apenas com 2 ou 3 anos. O mais importante é observar padrões, não acontecimentos isolados.

1. Pouco contato visual

Nos primeiros meses, o bebê costuma buscar o rosto dos pais, olhar durante a amamentação ou sorrir quando alguém sorri.
Quando isso não acontece de forma consistente, vale investigar.

2. Atraso ou ausência de balbucio

Entre 6 e 9 meses, esperamos vogais, sons espontâneos e tentativas de comunicação.
No autismo, pode haver:

  • Silêncio prolongado

  • Pouca variedade de sons

  • Balbucio que “não evolui”

3. Não responde quando chamado pelo nome

Mesmo com audição normal, muitos bebês com TEA parecem “não ouvir” quando chamados.
Isso costuma se tornar mais evidente após os 10–12 meses.

4. Pouca ou nenhuma troca social

Alguns exemplos:

  • Não imita caretas

  • Não aponta para mostrar algo

  • Não traz objetos para “compartilhar” com o adulto

  • Não demonstra empolgação ao brincar junto

5. Fascínio incomum por objetos específicos

No lugar de explorar brinquedos de forma funcional, a criança pode:

  • Girar rodinhas

  • Alinhar objetos

  • Fixar o olhar em luzes ou ventiladores

  • Focar em detalhes (etiquetas, texturas)

6. Movimentos repetitivos

Como:

  • Bater mãos (flapping)

  • Balançar o tronco

  • Andar na ponta dos pés

  • Repetir sons sem função comunicativa (ecolalia inicial)

7. Dificuldades sensoriais

O bebê pode reagir de forma intensa a:

  • Barulhos

  • Texturas

  • Toque

  • Corte de unhas ou cabelo

  • Roupas específicas

Ou, ao contrário, apresentar busca sensorial constante, como apertar objetos, cheirar tudo ou colocar itens na boca por muito tempo.

Sinais comportamentais que surgem entre 2 e 4 anos

Com o avanço da fala e da socialização, outras características podem ficar mais evidentes:

1. Atraso na fala ou ausência de comunicação funcional

  • Criança fala mas não usa para interagir

  • Usa palavras apenas para repetir

  • Não forma frases

  • Não aponta para expressar necessidades

2. Preferência por brincar sozinha

Mesmo em ambientes com outras crianças, ela tende a se isolar, ficar em cantos ou manter brincadeiras repetitivas.

3. Interesses restritos

Ficar horas falando do mesmo assunto, assistir sempre ao mesmo vídeo ou brincar da exata mesma forma.

4. Dificuldade para lidar com mudanças

Trocar de roupa, trocar o caminho ou mudar a rotina pode gerar crises intensas.

Doutora, vi um desses sinais no meu filho. E agora?”

Primeiro: não se culpe.
Autismo não é causado por algo que os pais “fizeram ou deixaram de fazer”.
É uma condição do neurodesenvolvimento com forte base genética.

Segundo: não é preciso esperar.

Se você observou sinais, o caminho é:

  1. Avaliação pediátrica especializada

  2. Triagens padronizadas do desenvolvimento

  3. Encaminhamento para equipe multidisciplinar (fono, psicopedagogia, terapia ocupacional, neuropediatria)

  4. Acompanhamento contínuo

Quanto antes começamos, mais a criança ganha autonomia, comunicação e bem-estar.

O diagnóstico não define a criança

Eu gosto sempre de reforçar:
o autismo é uma forma diferente de perceber o mundo — não um defeito.

Cada criança tem:

  • Potencial

  • Interesses

  • Habilidades únicas

  • Ritmo próprio

Meu papel, como pediatra, é ajudar famílias a enxergarem essas forças e a encontrarem caminhos de desenvolvimento que sejam respeitosos e eficazes.

Quando devo procurar uma consulta?

Procure avaliação se você percebe que:

  • Algo “no instinto” te chama atenção

  • O desenvolvimento da fala está muito atrasado

  • Há dificuldade na interação

  • A criança tem comportamentos repetitivos

  • Há crises frequentes sem motivo claro

  • Existe regressão (perda de palavras, contato visual, brincadeiras)

Não existe diagnóstico pela internet, e cada criança é única.
Mas existe acolhimento, orientação e acompanhamento — e isso faz toda a diferença.

Se você está vivendo esse momento, estou aqui para te ajudar.

Dra. Isabelle Faria Tiburcio
CRM/SP 177388 • RQE 128764

Posts relacionados

Cannabis medicinal e equilíbrio da saúde mental infantil e adulta
Cannabis e saúde mental: o que a ciência realmente mostra

Entenda como a cannabis medicinal pode atuar na saúde mental, com base científica...

Criança com sensibilidade sensorial e foco elevado, resolvendo atividades complexas de lógica e ciência
Altas habilidades no TEA: sinais e como identificar

Entenda como identificar altas habilidades em crianças com TEA e quando buscar avaliação