Criança com as mãos nos ouvidos em um ambiente sensorial tranquilo

Sensibilidade sensorial: o que é e quando investigar

Olá! O tema de hoje aparece com muita frequência nas consultas: sensibilidade sensorial.

Muitos pais me procuram preocupados porque seus filhos parecem “sentir demais” algumas coisas  — barulhos, luzes, texturas, cheiros, certos alimentos, etiquetas de roupas ou até mesmo situações do dia a dia.
E essa sensibilidade realmente pode impactar comportamento, alimentação, aprendizado e convivência social.

A boa notícia é que entender o que está acontecendo é o primeiro passo para ajudar. Vamos aprofundar?

O que significa ter sensibilidade sensorial?

Sensibilidade sensorial é quando o cérebro interpreta os estímulos do ambiente de maneira diferente do esperado. Isso pode acontecer em duas direções:

1. Hiper-responsividade (sentir “demais”)

A criança percebe estímulos como mais intensos do que outras pessoas.
Exemplos comuns:

  • Tampar os ouvidos com barulhos considerados normais

  • Recusar roupas por causa da textura

  • Sentir dor ou incômodo com luzes mais fortes

  • Evitar certos alimentos pelo cheiro, aparência ou consistência

  • Achar atividades simples “estressantes” por excesso de estímulos

2. Hipo-responsividade (sentir “de menos”)

Aqui, a criança busca mais estímulos para se sentir bem regulada.
Exemplos:

  • Procurar apertos ou abraços muito fortes

  • Gostar de se balançar intensamente

  • Procurar toques repetitivos

  • Pular, girar ou correr o tempo todo

  • Não perceber quando se machuca levemente

As duas formas podem coexistir.

A sensibilidade sensorial faz parte do desenvolvimento infantil?

Sim — até certo ponto.
Bebês e crianças pequenas ainda estão aprendendo a organizar as informações do ambiente, então algumas reações mais intensas são esperadas.

Mas quando isso:

  • interfere nas atividades do dia a dia,

  • gera sofrimento,

  • prejudica rotina familiar,

  • ou se mantém ao longo do crescimento,

pode ser um sinal de que precisamos investigar.

Sensibilidade sensorial tem relação com autismo?

Pode ter — e isso é importante esclarecer.

Crianças no espectro autista costumam apresentar algum tipo de diferença no processamento sensorial. 
Porém:

Sensibilidade sensorial NÃO significa automaticamente que a criança seja autista.

Também pode ocorrer em:

  • Crianças típicas,

  • TDAH,

  • Alterações de linguagem,

  • Dificuldades emocionais,

  • Ansiedade

  • Hiperatividade,

  • Atrasos no desenvolvimento.

O mais importante é avaliar o conjunto do comportamento.

Por que isso acontece?

O cérebro funciona como um “filtro” que escolhe o que é relevante e o que pode ser ignorado.

Nas crianças com sensibilidade sensorial, esse filtro funciona de forma diferente:

  • Pode deixar “passar tudo”, gerando sobrecarga.

  • Pode exigir estímulos mais fortes para perceber o ambiente.

Essa diferença não é culpa da criança, não é “frescura” e não é comportamento para chamar atenção.

Quando é importante buscar avaliação?

Oriento que os pais procurem ajuda quando perceberem:

Sinais de alerta

  • A criança sofre ou chora com barulhos “normais”

  • Rejeita roupas ou calçados com frequência

  • Evita brincadeiras comuns da idade

  • Tem seletividade alimentar intensa

  • Se irrita facilmente em ambientes cheios

  • Fica sobrecarregada com festas, shoppings ou escola

  • Busca estímulos muito fortes o tempo todo

  • Dificuldade de concentração por excesso de estímulos

  • Comportamentos repetitivos para se autorregular

Essas situações merecem uma avaliação em consultório.

Como é feita a investigação?

Na consulta, converso com a família sobre:

  • Rotina

  • Sono

  • Alimentação

  • Comportamento

  • Marcos do desenvolvimento

  • Reações a diferentes estímulos

Se necessário, encaminho para avaliação com terapeuta ocupacional especializada em integração sensorial, psicopedagogia ou neuropediatria.

O objetivo é entender não só a sensibilidade sensorial, mas o contexto geral da criança.

Como podemos ajudar a criança no dia a dia?

 

1. Adaptação do ambiente

  • Evitar luzes muito fortes

  • Reduzir ruídos

  • Criar rotinas previsíveis

  • Organizar os brinquedos

2. Estratégias sensoriais

  • Objetos de peso (mochilinhas, cobertores)

  • Brinquedos sensoriais

  • Texturas progressivas

  • Atividades que ajudam na autorregulação

3. Acolhimento emocional

A criança não “faz drama”. Ela realmente sente diferente.

4. Terapias baseadas em evidência

A integração sensorial pode ajudar muito, quando indicada.
E o mais importante: cada criança é única — o plano é sempre individualizado.

Mensagem final 

Eu sei o quanto é angustiante ver seu filho reagindo ao mundo de um jeito que você não entende.
Mas quero que saiba: há caminhos, há apoio e há acolhimento.

Se você percebe que seu filho pode estar apresentando hiper ou hipossensibilidade sensorial, fico à disposição para avaliar com cuidado, conversar sobre o desenvolvimento, orientar intervenções e construir, junto com a família, um ambiente mais leve para a criança.

Você não está sozinho. 
Estou aqui para ajudar.

Dra. Isabelle Faria Tiburcio
CRM/SP 177388 • RQE 128764

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