Ao longo dos últimos anos, tenho recebido cada vez mais famílias e pacientes com dúvidas sobre cannabis medicinal e saúde mental. Existe muita informação circulando na internet, mas também muita confusão, exageros e promessas que não condizem com a ciência.
Neste texto, quero conversar com você de forma clara e responsável exatamente como faço no consultório.
O que é a cannabis medicinal?
A cannabis medicinal envolve o uso terapêutico e controlado de substâncias extraídas da planta Cannabis, principalmente:
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Canabidiol (CBD)
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Tetrahidrocanabinol (THC)
- Outros canabinóides como CBG, CBN, CBC, THCV
Esses compostos atuam no sistema endocanabinoide, um sistema natural do nosso organismo que participa da regulação de funções essenciais como:
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Humor
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Sono
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Apetite
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Resposta ao estresse
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Processamento emocional
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Dor e inflamação
Esse sistema está presente em todas as idades, mas seu uso terapêutico exige indicações muito bem definidas, especialmente em crianças.
Cannabis e saúde mental: o que a ciência já sabe?
Os estudos mais consistentes mostram benefícios da cannabis medicinal em condições específicas, sempre com acompanhamento médico e avaliação individualizada.
Situações onde há evidência científica:
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Epilepsias refratárias
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Transtorno do Espectro Autista (TEA), principalmente com sintomas disruptivos como:
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Irritabilidade
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Crises de agressividade
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Distúrbios do sono
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Ansiedade associada ao quadro
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Dor crônica
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Transtornos do sono
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Algumas condições psiquiátricas em adultos
- Demências, incluindo Alzheimer e demência por corpos de Lewy.
- Doença de Huntington
- Parkinson
Cada caso precisa ser avaliado com muito cuidado, levando em conta idade, diagnóstico, medicações em uso e histórico clínico.
Cannabis e ansiedade: um ponto muito importante
Quero deixar isso muito claro:
O uso de cannabis para tratamento de ansiedade é indicado para ADULTOS, e não para crianças.
Em adultos, especialmente com uso predominante de CBD, existem evidências de benefício em transtornos de ansiedade, sempre com acompanhamento médico.
Em crianças, ansiedade isolada NÃO é indicação para cannabis medicinal.
Quando falamos de crianças, a ansiedade geralmente está associada a outros contextos — como TEA, TDAH, dificuldades sensoriais ou do sono — e o foco deve ser o tratamento da causa base.
Essa diferenciação é fundamental para segurança e responsabilidade médica.
E na infância, quando a cannabis pode ajudar?
Na pediatria, utilizamos cannabis medicinal com critérios muito específicos.
Ela pode ser considerada quando a criança apresenta, por exemplo:
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Transtorno do Espectro Autista quando outras linhas de tratamento convencional já foram usadas e o paciente ainda apresenta:
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Desregulação emocional importante
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Crises frequentes
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Prejuízo funcional significativo
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Epilepsia de difícil controle
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Distúrbios severos do sono associados a condições neurológicas
Sempre como parte de um plano terapêutico integrado, que inclui terapias, acompanhamento familiar e, quando necessário, outras medicações.
Cannabis não substitui terapia
Algo que sempre reforço no consultório é que a cannabis não substitui:
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Terapias comportamentais
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Psicoterapia
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Terapia ocupacional
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Fonoaudiologia
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Intervenções pedagógicas
Ela pode ser uma ferramenta complementar, ajudando o cérebro a funcionar de forma mais organizada, favorecendo o aproveitamento das terapias e o desenvolvimento global.
Meu olhar como médica
Apesar de ser pediatra, também realizo atendimento de adultos, especialmente em contextos relacionados à saúde mental e ao uso terapêutico da cannabis.
Busco sempre avaliar cada caso com base científica, ética e segurança.
Meu compromisso é sempre com:
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Indicação correta
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Uso responsável
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Acompanhamento contínuo
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Transparência com as famílias e pacientes
Quando procurar avaliação médica?
Se você é pai, mãe ou paciente adulto e percebe:
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Alterações importantes de comportamento
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Dificuldades persistentes de sono
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Crises emocionais frequentes
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Regressões no desenvolvimento
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Sofrimento emocional que impacta a rotina
Uma avaliação médica individualizada é fundamental.
Conclusão
A cannabis medicinal na saúde mental não é milagre, não é moda e não serve para todos.
Ela é uma ferramenta terapêutica séria, que exige conhecimento, responsabilidade e acompanhamento médico qualificado.
Quando bem indicada, pode trazer ganhos reais de qualidade de vida — tanto para crianças com condições neurológicas específicas quanto para adultos.
Se você sente que precisa de orientação segura, estou aqui para ajudar.