Criança com autismo em ambiente sensorialmente acolhedor

Cannabis medicinal ajuda nas crises sensoriais do autismo?

Cannabis medicinal pode ajudar em crises sensoriais do TEA?

Sou a Dra. Isabelle Faria, pediatra, e uma das perguntas que mais escuto no consultório — especialmente de famílias de crianças no espectro autista — é sobre crises sensoriais intensas: episódios de desorganização, choro inconsolável, agitação, agressividade ou fuga diante de sons, luzes, toques, cheiros ou mudanças inesperadas.

Quando essas crises se tornam frequentes, prolongadas e impactam o desenvolvimento, o sono e a qualidade de vida da criança e da família, é natural que os pais busquem alternativas além das terapias convencionais.
E uma dessas dúvidas recorrentes é: a cannabis medicinal pode ajudar nas crises sensoriais do TEA?

Neste texto, quero explicar de forma clara, ética e baseada em evidências o que a ciência já sabe — e o que ainda precisa ser melhor estudado.

O que são crises sensoriais no Transtorno do Espectro Autista?

Crianças com TEA frequentemente apresentam alterações no processamento sensorial, o que significa que o cérebro interpreta estímulos do ambiente de forma exagerada ou desorganizada.

Isso pode causar:

  • Hipersensibilidade a sons, luzes ou toques

  • Dificuldade com roupas, texturas e alimentos

  • Reações intensas a mudanças de rotina

  • Crises de choro, rigidez corporal ou agitação

  • Comportamentos de fuga ou agressividade defensiva

Essas crises não são birra. São respostas neurológicas reais a um sistema sensorial sobrecarregado.

Como a cannabis medicinal age no cérebro?

O corpo humano possui o sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como:

  • Modulação sensorial

  • Resposta ao estresse

  • Sono

  • Inflamação

  • Equilíbrio emocional

Os principais fitocanabinoides estudados são:

CBD (canabidiol)

  • Atua de forma moduladora e calmante

  • Não causa efeito psicoativo

  • Pode ajudar a reduzir hiperexcitabilidade neural

  • Tem ação anti-inflamatória e neuroprotetora

THC (tetrahidrocanabinol)

  • Pode ser usado em doses muito baixas e controladas

  • Em alguns casos, auxilia na regulação sensorial e comportamental

  • Exige acompanhamento médico rigoroso, especialmente em crianças

O que os estudos mostram sobre cannabis e crises sensoriais no TEA?

A literatura científica ainda está em desenvolvimento, mas estudos observacionais e revisões sistemáticas mostram resultados promissores em alguns pacientes com TEA, principalmente em relação a:

  • Redução da intensidade das crises sensoriais

  • Menor reatividade a estímulos ambientais

  • Melhora do sono

  • Redução de agitação e comportamentos disruptivos

  • Melhora da autorregulação

É importante destacar: não se trata de cura, nem de tratamento isolado. A cannabis medicinal pode ser considerada como parte de um plano terapêutico individualizado, quando bem indicada.

Cannabis substitui terapias?

Não.
As terapias continuam sendo a base do tratamento do TEA, como:

  • Terapia ocupacional com integração sensorial

  • Fonoaudiologia

  • Psicologia comportamental

  • Intervenções educacionais

A cannabis medicinal, quando indicada, atua como adjuvante, ajudando o cérebro a ficar mais organizado e receptivo às terapias.

Toda criança com TEA pode usar cannabis medicinal?

Depende, afinal não existe fórmula única e mágica para todo mundo.
A indicação deve ser criteriosa, individualizada e ética.

Avalio sempre:

  • Intensidade das crises sensoriais

  • Impacto funcional na criança e na família

  • Resposta às abordagens tradicionais

  • Idade, histórico clínico

  • Uso de outras medicações

Além disso, dose, proporção de canabinoides e acompanhamento clínico são fundamentais para segurança.

Segurança e acompanhamento médico

Quando bem indicada, prescrita e acompanhada, a cannabis medicinal não causa dependência, não “anestesia” a criança e não altera sua personalidade.

O acompanhamento inclui:

  • Ajuste gradual de dose

  • Avaliação contínua de benefícios e efeitos colaterais

  • Integração com terapias e rotina familiar

Quando conversar com um médico sobre isso?

Se você percebe que:

  • As crises sensoriais são frequentes e intensas

  • O sono está comprometido

  • Há sofrimento significativo da criança e da família

  • As terapias isoladas não estão sendo suficientes

Vale sim conversar com um profissional habilitado para avaliar se essa abordagem faz sentido no caso do seu filho.

Meu papel é orientar com responsabilidade, ciência e acolhimento.

Conclusão

A cannabis medicinal pode ajudar algumas crianças com TEA a lidarem melhor com crises sensoriais, quando usada de forma responsável, individualizada e integrada ao tratamento global.

Cada criança é única. E toda decisão deve ser tomada com informação, cuidado e acompanhamento médico.

Se você sente que precisa de orientação, estou aqui para ajudar.

Dra. Isabelle Faria Tiburcio
CRM/SP 177388 • RQE 128764

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